Pai
E o primeiro assombro está já na primeira palavra. O maior assombro. É por acaso normal que o homem se volte para Deus – o todo-poderoso, o criador dos mundos – chamando-lhe simplesmente “pai”?
Pai, sem mais. Esta é uma dessas palavras totais que se diminuem, se se lhes acrescenta um adjectivo. Dizer “pai bondoso” é muito menos do que dizer simplesmente “pai”. Quem é pai é-o de todo e com todas as consequências.
Porque aqui não se diz que Deus nos ame “como um pai”, ou que actue “paternalmente” connosco. Diz-se rotundamente que é em verdade nosso pai.
Olhai – diz S. João – que amor singular nos concedeu o Pai, que sejamos chamados filhos de Deus e o sejamos de facto (1 Jo. 3,1).
Perante esta ideia de chamar “pai” a Deus os santos saltavam de gozo. Nós acostumámo-nos. Mas – como escreve Schürmann – esta forma de se dirigir a Deus não é tão evidente como alguém poderia supor. Era preciso que Jesus nos desse a sua permissão e nos animasse a invocar Deus com esta palavra “pai”, tão íntima e familiar. Poderíamos, inclusive, dizer que esta foi a grande revelação que Jesus nos fez.
Não que fosse o primeiro a usá-la, mas porque a usou de um modo e de uma forma que nunca ninguém tinha empregado.
Em orações sumérias anteriores a Moisés e aos profetas, encontramos a invocação de Deus como “pai”. E em catorze passagens do Antigo testamento ouvimos designar Deus como pai e o povo de Israel como seu filho. Mas esta invocação toma um carácter completamente distinto no Novo Testamento. Além de se multiplicar o número de vezes que se utiliza esta palavra (só nos evangelhos são 170), encontramos que nas orações de Jesus e no começo do pai-nosso é usado um vocábulo que nunca tinha sido dirigido a Deus: Abba. Abba era o nome que o menino pequenino dirigia a seu pai. Ninguém antes de Jesus se atrevera a dirigir a Deus uma palavra de uso tão íntimo e familiar. Jesus, pelo contrário, na sua vida usa sempre esta palavra, a mesma que coloca no começo da oração que nos põe nos lábios: com ela nos introduz numa familiaridade com Deus que jamais ninguém tinha suspeitado.
Mais uma advertência. Também esta ideia de paternidade não é um tributo à masculinidade da civilização que Jesus viveu. Ao chamar Pai a Deus não estamos a divinizar o sexo masculino e a esquecer ou sub-valorizar a feminidade. O essencial da paternidade de Deus não é a masculinidade, mas o amor. Um amor que os próprios livros sagrados definem com frequência como maternal: Como a um menino a quem a sua mãe consola, assim os consolarei eu (Is. 66, 13)
Nosso
Esta é, na realidade, a única palavra que, acrescentada ao conceito de paternidade, a amplia e engrandece.
Na oração de Jesus, esse determinativo é absolutamente substancial. Algumas línguas, como o francês ou o inglês (Notre Père, Our Father), põem-no inclusivamente antes a palavra Pai. Certamente, uma oração que começasse por “Pai meu” nem seria cristã, nem se referia ao Deus verdadeiro.
Mas até onde abarca este “nosso”? Só o circulo de baptizados? Em certa linguagem oficial assim se poderia dizer. E a igreja assim o reconhecia ao não permitir sequer rezar o pai-nosso aos não baptizados.
Mas também é certo que a igreja é mais larga que os seus limites. São, pois, filhos de Deus todos os que O aceitam como Pai; são nossos irmãos todos os que de algum modo participam desse amor.
Mais ainda: Deus é Pai inclusivamente dos que não O amam. O que faz que um homem seja pai não é o amor com que é amado, mas o amor com que ele ama. Todos os homens são amados, todos têm na alma essa semente, pronta a frutificar, da filiação divina.
Que estais nos céus
Se nos acabam de dizer que Deus é Pai, que está próximo de nós, que é da nossa casa, porque O situam agora nos longínquos céus?
Mas em realidade não se trata de distância, mas de profundidade, de transcendência. A oração de Jesus começa por nos dizer que Deus está próximo, mas não é manipulável. O Deus Pai não deixa por isso de ser eterno, transcendente, infinito, criador, omnipotente.
Dizemos que está nos céus que está nos céus, porque nunca O poderemos abarcar, porque nunca acabaremos de O encontrar. Está em toda a parte, mas não conseguimos vê-lO em nenhum lugar.
Santificado seja o vosso nome
“(…) O nome é a definição de uma pessoa; conhecer o seu nome é possuir a chave da sua alma; injuriar ou elogiar o Seu nome é calcar ou engrandecer o Seu coração.”
Venha a nós o vosso reino
“(…) Na realidade, julgamos procurar a Deus e encontrá-lo, mas é Ele que vem a nós; e nunca O encontraríamos se ele não nos tivesse encontrado previamente. O homem crê subir até Deus com a sua oração. Mas em rigor a única coisa que faz é descrever nela que Deus desceu até ele.”
Seja feita a vossa vontade
“(…) Esta é a mais arriscada, a mais difícil das petições do pai-nosso. Em rigor, o homem nada deseja tanto como que se faça a sua própria vontade, e nada teme tanto como que alguém lhe imponha a sua. Por isso, muitos dos que rezam o pai-nosso abster-se-iam muito bem de o rezar se pensassem realmente no que pedem nele.”
O pão-nosso de cada dia
“(…) Jesus sabia que não só de pão vive o homem. Sabia também que não vive só da palavra de Deus. O pão e a palavra eram, para Ele, duas necessidades profundas, nenhuma delas vergonhosa, as duas imprescindíveis para uma vida verdadeira.
Não se pode, como cristão, separar o pão da palavra.”
Perdoai-nos as nossas dívidas
“(…) é bom que se use a palavra “dívidas” porque o que pedimos a Deus é não só que nos perdoe os nossos pecados, mas também a nossa falta de resposta a todos os nossos pecados, a todos os seus dons. Devemos-Lhe o ter-nos amado tanto. O ter-se Ele feito homem por nós. Efectivamente tudo em nós é dívida como tudo é dom em Deus.”
Assim como nós perdoamos
“(…) Talvez seja esta a frase mais desconcertante da oração que não deveríamos pronunciar sem tremer: pobre do homem se Deus só lhe perdoasse como ele perdoa. (…) Não é que Ele perdoe “porque” nós perdoamos; tão pouco que Ele perdoe “como” nós o fazemos. (…) É, simplesmente, porque Deus quer que entre Ele e os que O amam se constitua uma comunidade de perdoadores da qual fique excluído aquele que não se decida a perdoar aos outros.
Já Volney afirmava que o perdão das injúrias, longe de ser uma virtude, chega a ser uma imoralidade e um vício. E muitos cristãos, que não se atrevem a ser tão brutalmente sinceros, dizem realmente o mesmo quando afirmam que eles perdoam, mas não esquecem.”
Não nos deixeis cair em tentação
“(…) Vigiai e orai para não cairdes em tentação. (Mc 14,38), gritava Jesus aos seus apóstolos. (…) está nas mãos da tentação o cristão de hoje. E deveria alegrar-se. Porque, segundo Michelet, um mundo onde tudo corresse sobre carris escorregadios ficaria diminuído. Toda a alma chegaria nele a amolecer-se e a ser já incapaz de todo o ímpeto.”
Mas livrai-nos do mal
“(…) O céu – escreve Evely – recebe-se. O inferno cada uma o fabrica para si, entregando-se ao desespero.
É deste mal que pedimos a Deus que nos ajude a livrar-nos.”
Sob o signo da confiança
“Assim se encerra a oração de Jesus. A tradição cristã ainda lhe acrescentou um pequeno apêndice, o “ámen”, que resume a confiança de quem a reza: assim é, assim vai ser, assim será.”
sábado, 3 de março de 2007
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1 comentário:
Reuniao alem de muito bem organizada, bastante original....Gostei :D
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